quinta-feira, 19 de maio de 2011

O Mosteiro Shaolin e o Budismo na China


[Publicado originalmente em 11/3/2008, no blog "Em Tel Aviv"]

Este livro tratando de aspectos do Budismo praticado no Mosteiro Shaolin, do sinólogo Meir Shahar, aqui da Universidade de Tel-Aviv, foi recentemente publicado pela Editora da Universidade do Havaí. Fiz contato com ele e nos encontramos para que eu pudesse apresentar a ele uma proposta de tradução do livro, uma idéia que me surgiu assim que eu soube da publicação, quando vi um anúncio em um mural do Gilman (o prédio da filosofia). No momento estou tentando conseguir uma editora brasileira que se interesse pela publicação da tradução. A partir da idéia de traduzir o livro, fiz contato com Rodrigo Apolloni, praticante e professor de Kung Fu Shaolin em Curitiba, com a idéia de formarmos uma dupla para traduzir o volume. Ele já traduziu artigos do Professor Shahar para o português e também é autor de vários artigos tratando de diferentes aspectos do Kung Fu Shaolin praticado no Brasil.
Um dos argumentos mais importantes no livro é o questionamento a respeito da conjugação da prática marcial dos monges Shaolin que aparentemente parece estar em contradição com um dos princípios fundamentais do Budismo, o da não-volência. Além disso, Shahar mostra como sendo eles, os monges Shaolin, budistas possuem estes também o hábito de comer carne. Um argumento bastante interessante, documentado com relatos históricos que justificam esta excessão no contexto do Budismo. O livro trata ainda da importância do papel do Mosteiro Shaolin no desenvolvimento do Budismo Chinês, tendo sido em Shaolin o primeiro lugar de desenvolvimento do Budismo fora da Índia.

[Adendo em 19/5/2011]

A idéia de traduzir o livro deu certo e  agora, vários meses (3 anos para ser mais exato) depois sai publicada pela Editora Perspectiva a tradução do livro O Mosteiro de Shaolin: História, Religião e as Artes Marciais Chinesas. Traduzido por mim e pelo estudioso e especialista em Ciências da Religião, Rodrigo Wolff Apolloni, o livro resulta de um esforço extra que despendi durante minha tese de doutorado e que resultou em, além deste, ainda na tradução do livro Pragmática e Filosofia da Mente, de Marcelo Dascal, que está no prelo e deve sair até o fim deste ano publicado pela Editora da UFPR.

Walden Two (O Segundo Walden)

[Publicado originalmente em 16/3/2008, no blog "Em Tel Aviv"]

Bom, agora dei pra comentar aqui alguns livros que ando lendo de vez em quando. Mesmo que nem todos interessem aos leitores desse blog, deixo aqui registrado algumas leituras que acho legais. Os livros chatos acho que não vou comentar, me refiro aos chatos que leio como distração, pois os chatos que tenho que ler, por causa da profissão, esses acho que não vou comentar mesmo. E se fizesse isso, esse blog iria virar um blog de resenhas, o que não é de todo uma má idéia, mas não é meu objetivo aqui. Esse blog pretende ser uma forma de contato com meus amigos, então não vou chatear com "observações inteligentes". Quem sabe acabo abrindo outro blog pra isso? Esse era o objetivo do "Coisas da Vida", ou então, no "Controverso", mas estes estão mais parados do que poste. Deixa.


Resolvi comentar este livro "Walden Two" aqui, por alguns motivos. Trata-se de uma espécie de ficção científica contemporânea. Contemporêneo não por que tenha sido escrito recentemente, pois não foi, é dos anos 40, e "ficção científica", não no sentido que retrate um tema futurista (e é por isso também que é contemporâneo) ou tecnológico, não. É uma ficção, isso é sim. E pra quem só sabia do Skinner como psicólogo behaviorista (comportamentalista) e, ainda por cima, através da propaganda lingüística gerativista segundo a qual o behaviorismo era uma praga, ou a própria maldade encarnada em teoria psicológica, finalmente aniquilada pelo "São Chomsky"... me desculpem, tanto aqueles de vcs que sabem e os que não sabem do que estou falando. Os que não sabem, deixem pra lá, não vale a pena (já vou falar do livro, já, já); aos que sabem, digo apenas que não tenho outro modo de disfarçar minha ignorância, além de tentar explicitá-la assim de maneira críptica.


Mas o Skinner, além de psicólogo, também foi ficcionista e esta ficção que ele construiu neste livro vem bem a calhar, vcs já vão ver. Primeiro, vou deixar de lado o comentário sobre o fato do livro se chamar "Walden dois" por uma referência ao "Walden" original, do Henry Thoureau, que não sei ou não lembro se já li, mas sei do que se trata (aquelas coisas de quem faz letras). Mas este segundo Walden é de fato uma utopia, isto é, poderia ser enquadrado neste gênero (utopia é um gênero?). Há vários outros deste tipo, que não vou mencionar, porque não li, e os que li não lembro agora. Mas não é uma ficção científica, como já disse, do tipo do "Admirável Mundo Novo" (Huxley), ou do "1984" (Orwell). Mas tem semelhanças. De certa forma estes dois também são utopias, mas bastante tecnológicas, apesar de que o primeiro não tanto.


Mas este "Walden dois" é uma imaginação da cabeça do Skinner, de uma sociedade em que os princípios da "engenharia comportamental" são aplicados com o fim de promover o melhor bem estar possível a uma comunidade. Em uma comunidade de mil pessoas, estes princípios são implementados com este objetivo. Não há uma classe governante, a administração do grupo cabe a todos e o objetivo é a independência (do "mundo lá fora") em todos os sentidos. Vivem numa fazenda e produzem os próprios alimentos, educam os próprios filhos, e proporcionam uma vida praticamente idêntica a que se encontra fora da pequena sociedade. Mas com a diferença de que todos os indivíduos são treinados, desde crianças, conforme os princípios (explícitos) da tal engenharia comportamental, procurando eliminar os defeitos da vida em que as regras de aprendizagem estão implícitas nas formas sociais, conforme a gente experimenta normalmente.


O enredo é bem bacana, com a exceção de um personagem, o idelizador da comunidade, que na tentativa de justifcar seu experimento aos visitantes que foram passar uns dias na fazenda (dois professores universitários e alguns alunos), fala pelos cotovelos explicando como tudo é feito, tin-tin por tin-tin. Isso deixa a narrativa um pouco cansativa, pelo menos pra mim e, por isso, estou lendo rápido pra ver onde esta estória vai dar. Confesso que dá aquela sensação de que algo vai mal sobre a vida na comunidade, pela narração do personagem. Mas já dei uma espiada lá pro fim do livro e parece que o Skinner era também um idealista. Parece que no fim, um dos professores vai ficar vivendo por lá. Mas não sei, estou achando, pois ainda não li.


Em fim, o Skinner me parece um escritor bem mais interessante do que o Chomsky e me parece que também um melhor psicólogo. O que quero dizer com isso precisaria ser justificado, pra que não fosse mal entendido. Mas não vou fazer isso agora. Vou apenas dizer que entre behaviorismo e racionalismo existe uma controvérsia, quero dizer com isso, algo indecidível, pelo menos por enquanto.

Esculturas no campus da Universidade de Tel Aviv (Publicada originalmente em 22/3/2008 no blog "Em Tel Aviv")


Esta é uma das que mais gosto. Fica em frente ao prédio da odontologia, perto da medicina, para trás das letras. É feita em pedra e em tamanho aproximado (um pouco maior) ao natural, de uma pessoa. Ainda não consegui um bom ângulo dela, neste dia o sol estava numa posição que me impediu de tirar uma foto de frente e de perto.
Esta é "Les Acrobats", na entrada da biblioteca das ciências sociais. Feita em ferro.

E aqui está uma foto de perto de "O sacrifício de Isaac". Avaliem por vocês mesmos. É feita em aço e deve ter uns dois ou três metros de altura. Atrás vocês têm uma visão parcial do Beith Hatefutsoth (Museu da Diáspora).

Ainda sobre a nota da ABL

Apresento aqui uma consideração complementar sobre a tal "nota" da ABL. Proponho dois argumentos que são os seguintes:

1. a nota da ABL cita o Mattoso Câmara de maneira descontextualizada;
2. A ABL está preocupada, além de com a sua tradição de existência, não com a língua portuguesa ou com a literatura, como ela diz estar. Ela está preocupada com aquela tradição de beletrismo que mencionei.

Vejamos: Esse beletrismo, muitas vezes, assume um mal gosto impressionante. Menciono apenas os Josés Sarneys que por lá circulam, além de todos os beletristas que de literatura não entendem, nem produzem nada. Preciso citar nomes? Claro que a ABL não é só constituída por literatos de estética duvidosa, ver o Carlos Heitor Cony (e vários outros), por exemplo, porém isso não os livra de julgamentos equivocados sobre a existência da língua. Por isso e além disso, a ABL não é nem nunca foi garantia de literatura (ou língua) de boa qualidade. Quantos Limas Barretos nunca puderam fazer parte da gloriosa seleta? A língua literária é, geralmente, transgressora. Preciso citar nomes? Todos os que são hoje "grandes autores" alguns dos quais a ABL se vangloria, foram, em seu tempo, transgressores. E isso vale não apenas para a literatura brasileira, mas tbm para a literatura mundial. Todos os Dostoievskis, Kafkas, Joyces e Kerouacs, passados, presentes e futuros, fizeram e farão uso da linguagem coloquial, exatamente essa que a ABL não quer valorizar.

Vamos agora ao uso descontextualizado do Mattoso. A ABL, e não apenas ela, costuma se valer desta passagem do "nosso primeiro e grande linguista brasileiro" para tentar justificar seu conservador beletrismo de gosto duvidoso. Fui então até o "nosso" linguista para verificar a passagem citada, que é esta:

Assim, a gramática normativa tem o seu lugar no ensino, e não se anula diante da gramática descritiva. Mas é em lugar à parte, imposto por injunções de ordem prática dentro da sociedade. É um erro profundamente perturbador misturar as duas disciplinas e, pior ainda, fazer linguística sincrônica com preocupações normativas. (1970, p. 15)

Vejamos agora o contexto que foi adulterado pelos espertalhões da ABL (desculpem a longa citação, mas é preciso). Diz Mattoso:

Vimos que a gramática greco-latina era normativa e se podia definir como “a arte de falar e escrever corretamente”. Será que essa gramática deve ser abandonada, como sustentam alguns linguistas, especialmente norte-americanos?
            A resposta que parece certa é que há em tal atitude uma confusão entre duas disciplinas correlatas mas independentes. A gramática descritiva, tal como a vimos encarando, faz parte da linguística pura. Ora, como toda ciência pura e desinteressada, a linguística tem a seu lado uma disciplina normativa, que faz parte do que podemos chamar a linguística aplicada a um fim de comportamento social. Há assim, por exemplo, os preceitos práticos da higiene, que é independente da biologia. Ao lado da sociologia, há o direito, que prescreve regras de conduta nas relações entre os membros de uma sociedade.
            A língua tem de ser ensinada na escola, e, como anota o linguista francês Ernest Tonnelat, o ensino escolar “tem de assentar necessariamente numa regulamentação imperativa” (Tonnelat, 1927, p. 167).
            Assim, a gramática normativa tem o seu lugar e não se anula diante da gramática descritiva. Mas é um lugar à parte, imposto por injunções de ordem prática dentro da sociedade. É um erro profundamente perturbador misturar as duas disciplinas e, pior ainda, fazer linguística sincrônica com preocupações normativas.
            Há a esse respeito algumas considerações, que se fazem aqui necessárias. Antes de tudo, a gramática normativa depende da linguística sincrônica, ou gramática descritiva em suma, para não ser caprichosa e contraproducente. Regras de direito que não assentam na realidade social, depreendida pelo estudo sociológico puro, caem no vazio e são ou inoperantes ou negativas até. Só é altamente nociva uma higiene que não assenta em verdades biológicas. Não se compreende uma situação inversa. Depois, mesmo quando convém a correção de um procedimento linguístico (porque marca desfavoravelmente o indivíduo do ponto de vista da sua posição social, ou porque prejudica a clareza e a eficiência da sua capacidade de comunicação, ou porque cria um cisma perturbador num uso mais geral adotado), é preciso saber a causa profunda desse procedimento, para poder combatê-lo na gramática normativa. Finalmente, a norma não pode ser uniforme e rígida. Ela é elástica e contingente, de acordo com cada situação social específica. O professor não fala em casa como na aula e muito menos numa conferência. O deputado não fala na rua, ao se encontrar com um amigo, como falaria numa sessão da Câmara. E assim por diante.
            Quando o linguista sincrônico se insurge contra o gramático normativo ou o professor de língua, é em regra porque este e aquele declaradamente desobedecem a esses 3 preceitos. Impõem as suas regras praxistas como sendo linguística. Corrigem às cegas, sem tocar no ponto nevrálgico do procedimento linguístico que querem corrigir e com isso só criam confusão e distúrbio. Partem do principio insustentável de que a norma tem de ser sempre a mesma, e fixam um padrão social altamente formalizado como sendo o que convém sempre dizer.
            O remédio é o professor de língua e os homens em geral aprenderem os princípios gerais da linguística. Para isso, a melhor solução parece ser fornecer-lhes uma gramática descritiva desinteressada de preocupações normativas.
            Há apenas uma observação final a fazer. Se a língua e variável no espaço e na hierarquia social, ou ainda num mesmo individuo conforme a situação social em que se acha: a gramática descritiva pode escolher o seu campo de observação. Se ela tem em vista, indiretamente, o ensino escolar, como é o objetivo implícito do presente livro, a escolha esta de certo modo predeterminada. A descrição não tomara por base, evidentemente, uma modalidade popular ou remotamente regional. Muito menos vai assentar num uso elaborado e sofisticado, como é, por exemplo, a língua da literatura. Partirá do uso falado e escrito considerado ‘culto’, ou melhor dito, adequado às condições ‘formais’ de intercâmbio linguístico no sentido inglês do adjetivo. (Mattoso Câmara, 1970, p. 15-16. Grifos meus.)

Uma rápida leitura já demonstra onde está o problema da descontextualização promovida pela citação da passagem destacada na "nota" da ABL. Mattoso, o linguista, não afirma nem nunca afirmou que o normativismo linguístico possui a suposta autonomia que a ABL procura afirmar ao citá-lo. Está claro no contexto de onde a nota da ABL extraiu sua citação que a abordagem normativa depende da abordagem descritiva (para usar os termos de Mattoso). A independência que o autor menciona é de característica histórica e metodológica. O descritivismo linguístico não possui, historicamente, as mesmas preocupações metodológicas que o normativismo. As duas abordagens voltam-se para objetos diferentes, porém complementares. O normativismo é dado a exageros de fixidez formal, enquanto o descritivismo é dinâmico, o que o torna mais de acordo com a natureza própria da língua. A língua muda no tempo e no espaço, as descrições também mudam, as normas porém tendem a se fixarem em um determinado recorte espaço-temporal sobre o qual constroem um monumento. E este monumento legisla sobre uma forma de uso linguístico historicamente determinado. A ABL erigiu um monumento destes para si e se acredita com autoridade suficiente para determinar o que deve ou não fazer parte de livros didáticos. A ABL não possui autoridade para isso, mas ela pode, contudo, se manifestar, deixando claro com isso o caráter conservador e antiquado de sua perspectiva sobre a língua.

**Aqui o link para uma discussão recente sobre o assunto no Zero Hora:
http://zerohora.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default.jsp?uf=1&local=1&section=Geral&newsID=a3315386.xml

Aqui mais alguns links importantes:

http://www.abralin.org/

Vejam ali o

"Posicionamento da ABRALIN sobre a polêmica do livro didático

e o

"Posicionamento da ALAB sobre a polêmica do livro didático".

Além das manifestações dos especialistas das mais variadas matizes, como o Marcos Bagno (UNB), Carlos Alberto Faraco (UFPR),  Miriam Lemle (UFRJ), Sirio Possenti (Unicamp), Stella Bortoni (UNB). 

E aqui uma entrevista com o Ataliba de Castilho:

http://www.youtube.com/watch?v=mTLsjLvv80w&feature=related