terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Sobre a dicotomia direita / esquerda

Veja no link a seguir o post do filósofo Paulo Ghiraldelli sobre o tema direita/esquerda na política brasileira:


Mais abaixo, faço meus comentários sobre o texto do Paulo e estendo minhas reflexões sobre o assunto. Para iniciar, deixo aqui duas sugestões de leitura para aqueles que quiserem participar do debate a respeito do significado atual da dicotomia: A primeira sugestão é o livro do Norberto Bobbio "Direita e Esquerda: Razões e significados de uma distinção".

A outra sugestão é o livro do Anthony Giddens "Para Além da Esquerda e da Direita: O futuro da política radical" (ambos os títulos foram traduzidos e publicados pela Editora da Unesp).


Existe uma extensa bibliografia a respeito do assunto, estes dois títulos representam, no entanto, em geral, as duas linhas de pensamento a respeito da questão. Isto é, aquela que mantém o valor histórico da dicotomia, e a outra que entende que já não é mais possível, historicamente, manter o mesmo valor à dicotomia. A discussão pode ainda ser contextualizada tanto no âmbito da política nacional quanto internacional, também é válida para o debate da questão no contexto filosófico na contemporaneidade, de preferência situada historicamente.

A perspectiva de Ghiraldelli situa a dicotomia no contexto da política nacional. Para o autor, no post indicado no link acima, a polarização ainda é perfeitamente válida e ele afirma ainda a inexistência de uma "terceira opção", aquela em que a polarização não possui mais valor. Ao fazer isso Ghiraldelli deixa de fora a opção do Partido Verde brasileiro. O discurso de alguns de seus integrantes, tanto de seu dirigente nacional (José Luiz Penna)  como de sua candidata a presidência (Marina Silva) reflete aquilo que está estabelecido no item 4 da primeira parte do programa do partido:
"O PV não se aprisiona na estreita polarização esquerda versus direita. Situa-se à frente. Está aberto ao diálogo como todas as demais forças políticas com o objetivo de levar à prática as propostas e programas verdes. O PV identifica-se com o ideário de esquerdaMas não segue os cânones da esquerda tradicional, da mesma forma com que questiona a hegemonia neoliberal, duas vertentes do paradigma produtivista do século XIX. Os verdes buscam na ecologia política novos caminhos para os problemas do planeta". (1 - Princípios, item 4. Destaque meu) no compromisso com as aspirações da grande maioria trabalhadora da população e na solidariedade com todos os setores excluídos, oprimidos e discriminados. Defende a redistribuição da renda, a justiça social, o papel regulador e protetor do poder público em relação aos desfavorecidos e os interesses da maioria dos cidadãos, não só diante do poder econômico, como dos privilégios corporativistas.
Obviamente, poderiam ser apresentados argumentos, devidamente contextualizados, questionando a validade do que afirma o texto do princípio acima. Uma análise crítica rápida ao texto seria já esclarecedora. Apesar de rejeitar a polarização, o texto afirma a identificação do partido com a esquerda, mas não como ela se apresenta tradicionalmente (em seus cânones). Além disso afirma questionar a ideologia neoliberal. Parece que estamos diante de uma terceira opção, ou o texto do programa do PV está fazendo uma afirmação indevida --que não corresponde à sua realidade ideológica-- e infundada --a qual não possui respaldo político para ser sustentada? Parece que não é ainda possível fazermos uma afirmação definitiva sobre esta questão. O que fica claro é a opção pela dicotomização da ideológia política em dois polos. A aceitação de uma versão forte desta polarização, levaria à necessidade de classificação sempre em seus termos, isto é, se algo não é de direita é de esquerda, nada escapa à sua classificação.

Um outro tipo de crítica poderia ir ao encontro do que afirma Emir Sader:


http://www.cartamaior.com.br/templates/postMostrar.cfm?blog_id=1&post_id=532, juntamente com alguns setores de uma chamada esquerda (ver por exemplo a crítica que o candidato à presidência, Plínio de Arruda Sampaio, do PSOL, tem feito a Marina Silva nos debates de campanha), que situa o PV à direita, dizendo que na verdade o PV é um partido dissimulado, que aceita "conchavos" com seus adversários. Certamente o PV é um partido repleto de problemas e contradições, como todos os partidos políticos atuais no Brasil, mas dessa condição afirmar que sua proposta é mentirosa é uma afirmação um tanto temerária. Sendo assim,  se o discurso do PV é falso, o de todos os outros partidos também seria? Para Sader, o PT foi e continua sendo um partido de esquerda, diferente do que pensa uma certa esquerda representada pelo PSOL e, possivelmente, pelo PSTU.

Então, para Ghiraldelli, toda essa tentativa de resituar-se ideologicamente, essa tentativa de criação de um lugar político desdicotomizado, talvez pluralista, não possuiria validade política real. Seria uma ficção, imaginação mal-intencionada daqueles que se perguntam  sobre a possibilidade de uma posição política desta natureza? Não estou aqui afirmando indiretamente que o PV teria condições de comprovar, na prática política, caso chegasse à presidência, essa sua intenção de se diferenciar ideologicamente. Mas me parece que insistir na dicotomia, tanto não representa a posição, não só do PV, como também de uma série de outras tendências de organização política não só no Brasil, indica uma falta de percepção da situação política contemporânea. 

Vejamos outros exemplos. Como se define minimamente a direita e a esquerda? Claro que não podemos tomar as duas posições como absolutas, ou estou errado? Mas parece que também não é possível afirmar que a idéia de esquerda seja igual à de 'partido de oposição'. A esquerda parece se definir em geral pelo compromisso com uma sociedade mais justa e igualitária. No contexto internacional, por exemplo, vejamos a evolução histórica de alguns movimentos revolucionários. O caso da FARC, por exemplo. De movimento revolucionário nos anos 60 passa a grupo terrorista ligado ao narcotráfico na atualidade. E chamá-los de terroristas não se trata apenas de uma classificação imposta pelo totalitarismo norte-americano, veja por exemplo a prática dos sequestros da população em geral e a opressão aos agricultores abandonados pelo poder central que o movimento revolucionário impõe à população colombiana. Parece-me que o mesmo poderia ser afirmado, com pouca variação (e salvo desconhecimento), de uma série de outros grupos armados em ação atualmente: Hezbolla, Hamas, Taliban, etc. Outros, já quase extintos: IRA, ETA, etc. Nenhum desses grupos pode ser dito de esquerda. São, no mínimo, grupos de extrema direita de orientação fundamentalista.
Vejamos, agora, um outro tipo de situação. Seria acertado dizer que o movimento negro norte-americano rompeu com sua orientação de esquerda ao levar à presidência dos Estados Unidos um presidente seu representante. Claro que sempre pode-se argumentar que o Obama não é representante do movimento negro e que nos EUA não existe direita e esquerda, ou que no máximo, se existe ela não consegue se projetar na disputa política do país. De todo modo, há motivos para se duvidar destas afirmações. No mínimo, o movimento negro americano serve como analogia para uma certa esquerda preocupada com os direitos sociais de minorias aqui na América Latina.

Ora, mas está claro que o texto do Paulo não faz a opção pela versão forte da polarização. A posição do autor se parece, contudo, muito com a do texto do programa do Partido Verde, em  seu aspecto de "uma terceira opção", apesar do autor negá-la já de saída: "essa posição não existe". Poderá vir a existir? Vejamos.
A estratégia que Ghiraldelli então coloca imediatamente, já no segundo parágrafo, é a de estabelecer nuances entre os dois polos, Ele fala de "direita e esquerda democráticas". Além desta, muitas outras nuances poderiam ser aplicadas, adjetivadas em todos os graus que a política permite: radical, moderada, etc. Parece então que a estratégia de despolarização do Paulo busca um outro caminho, para além o da negação e com isso ele não cai na contradição que o texto do programa do PV acaba por recair.

Ghiraldelli prossegue diferenciando entre dois compromissos em que tanto a esquerda quanto a direita se diferenciariam, a liberdade e a igualdade.

A tratar: a polarização do mundo, isto é, a construção de um interpretação de todas as coisas a partir da dicotomia direita/esquerda; 

(Continua ...)